Modernidade líquida – Francisco Melgareco Benine


 

Foto: divulgação

 

A liquidez do mundo está afogando nossa geração e nem percebemos. O sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman definiu como “modernidade líquida” a volatilidade da sociedade e os novos padrões e conceitos que definem a vida das pessoas nos dias de hoje.

Líquido porque não há mais solidez, consistência, durabilidade, seja nas relações humanas, na ética, nas regras de convívio, no amor e na economia. Afinal, hoje tudo se compra e se vende, e agimos cada vez mais como uma mercadoria dentro de um sistema que não se importa com o “quem”, mas com o “quanto”.

É como tentar segurar a água com as mãos, ela vai escorrer. A nossa comida esfria enquanto tiramos a foto pra publicar, o parecer parece cada vez mais importante que o ser, que o viver e o estar. Estar em algum lugar passa a ser algo relativo, estamos em um lugar, mas a cabeça está em diversos outros.

É claro que esse mundo líquido tem também seu lado bom. Tudo é mais fácil, mais rápido. A era da informação pode ser produtiva, mas também destrutiva. Essa rapidez e facilidade por outro lado também torna tudo mais descartável, a informação é rápida, porém rasa. Amizades vem e vão de acordo apenas com o interesse momentâneo, o termo “amigo de infância” deverá ser extinto em um futuro breve.

O algoritmo de nossas redes sociais assustadoramente parece nos conhecer mais que conhecemos a nós mesmos. Escutam atrás da porta e nos espiam enquanto deixamos nossos dados em todos os lugares que passamos, ou “acessamos”. Faz por nós pois não temos tempo, pois tempo hoje é líquido também, o ciclo de tudo é mais curto e passageiro.

A vida líquida é como a transição de “publicação” para “stories”, aparece e some no outro dia, o registro é rápido, não há álbum nem arquivo, não se revela a foto, pois hoje fotos estão líquidas como a água. Cada vez mais difícil de acompanhar a onda, um mar agitado, um rio com correnteza forte, líquido, se move, se desfaz, desmancha o sólido e leva embora.

Enquanto a ansiedade vem sendo considerada o mal do século, estamos ansiosos pela adaptação à essa geração líquida. Líquida como a música hoje, apenas um plano de fundo, não diz nada, não significa nada, o ridículo passa a ser notável, a “sensualidade” passa a ser requisito de talento. Se ouve o que “ouvem por aí”, não importa se é bom, é bom porque “ouvem por aí”. Não há mais tempo pra compreender nada, muito menos paciência.

O “like” torna-se a moeda principal em um mundo líquido. Anonimato vira quase morte. Derreta-se ou afogue-se, pois só assim sobrevirá. Enquanto pessoas usam tudo que podem na “guerra” pelos “likes”, que no fim das contas são um grande e pomposo “nada”, muitas vezes elas deixam pelo caminho o senso do que é plausível, incorporando muitas vezes um personagem que não existe, uma vida de mentiras.

Essa liquidez que faz com que as pessoas e as relações se tornem cada vez mais descartáveis tem um poder quase “pandêmico”. O ser humano age por instinto e sem perceber acabar por agregar para si os hábitos que observa ao seu redor, na maioria das vezes sem questionar se esse comportamento vai ao encontro de seus princípios. A instabilidade permanente faz com que as pessoas se desconectem com facilidade, umas das outras, e da realidade.

Evoluir é necessário e inevitável. Talvez não haja aprendizagem verdadeira sem o erro. A tecnologia, assim como as redes sociais podem ser ferramentas fantásticas de avanço da humanidade, talvez ainda não aprendemos, ou estamos no meio do caminho entre a evolução tecnológica juntamente com a pessoal. Enquanto isso, não custa subir até a superfície de vez em quando, ver o mundo real, ser real, consistente e menos…líquido.

 

 

 

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