O GAROTO QUE CONFIOU NO CORRETOR – Maurício Rosa

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Foto: divulgação


 

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João fez sua mãe Fátima sair correndo do banheiro depois que começou a gritar de maneira histérica na sala. Ela percebeu que o telefone que ele assistia vídeos estava sem bateria. João, de um ano e nove meses, rolava no chão querendo voltar a usar o aparelho. Após alguns segundos de aflição, Fátima conseguiu contornar a situação. Deu o telefone para o garoto mesmo com ele conectado à tomada. Esse era o sossego que ela precisava. Ele ficava vendo vídeos de desenhos rolando a tela do celular. Dava altas risadas e Fátima achava aquilo maravilhoso.

Aos cinco anos de idade, ele assistia outros tipos de vídeos. Seguia exigindo coisas, gritando com sua mãe e dando sossego a ela apenas quando estava conectado. A fase agora era dos influenciadores. João repetia tudo que assistia. “Alô, galera do canal, como vocês estão?”. Os desenhos de luta deixaram João um pouco agitado.

Chegou a hora de ingressar na escola. Um sacrifício imensurável. João começava a chorar quando sua mãe começava a preparar sua mochila. Durante todo esse tempo, ela seguia usando o celular como sua melhor ajuda. Era só o que acalmava o garoto.

Na escola, João não conseguia prestar atenção nas professoras e não conseguia socializar com os colegas. Ele ficava contado as horas para chegar em casa e pegar o celular e ficar sozinho no quarto, recebendo tudo nas mãos.

Aos 10 anos de idade, João repetia pela segunda vez o terceiro ano. Não escrevia e muito menos lia direito. Certa vez, recebeu uma redação corrigida pela sua professora. Ficou sem entender o porquê, tantos rabiscos, que isso? Então questionou-a.

– Professora, que traços estranhos são esses que a senhora fez de vermelho na minha história?

– Isso são vírgulas. Eu quase morria asfixiada lendo seu texto.

– Como assim?

– Não tive pausa. Para isso serve a vírgulas, entre tantas outras funções que eu já expliquei.

– No celular não precisa disso. E todo mundo me entende. Responde João.

– Sim, mas as maiores provas da sua vida não serão realizadas pelo celular. Você precisa ler mais, pegar um livro de verdade prestar mais atenção no que eu explico.

Mas tudo isso entrou por um ouvido e saiu pelo outro. João seguiu viciado em telefone. Com quinze anos ele ainda cursava o ensino fundamental. Seguia sem saber o básico de escrita, sem falar dos reflexos disso tudo em outras disciplinas.

Aos 16 apaixonou-se por Luana. Uma menina completamente diferente dele. Os dois começaram a conversar, mas ela não conseguia entender o que ele escrevia. Certa vez ele mandou a seguinte frase: “Boa noite, como você, tá linda?”. Luana ficou assustada e afastou-se de João. Assim fez também com Mônica, Franciele, Maiara, Letícia e tantas outras. A falta de leitura estava causando problemas enormes na sua vida amorosa.

Aos 20 resolveu, com muito custo, arrumar emprego. Mas preenchia os currículos com erros graves de ortografia, pois ele educou-se com o corretor do telefone. Ele ficou por anos escrevendo as palavras da forma que ele achava que eram.

Aos 25 terminou o ensino médio. Pronto, agora tinha “segundo grau”. Arrumou vários empregos, mas não tinha foco, disciplina e muito menos bom diálogo. Sem falar que tinha graves problemas com a Matemática. Multiplicar números com dois ou mais algarismos era uma tortura. Mal e mal sabia a tabuada do cinco.

Com 30 anos de idade, João desenvolveu depressão. Os fracassos venceram. Amorosos, profissionais e financeiros. Apesar de ser jovem, ele achava-se o maior derrotado que conhecia. Porém, seguia rolando a tela do telefone. Às vezes, publicava textos na rede social, mas ninguém lia. Porque ninguém entendia nada do que ele escrevia.

Aos 32 foi chamado de burro através de um comentário em seus textos. Foi então que João, sem argumento, diálogo e cheio de medo de errar mais ainda dando uma resposta àquela pessoa ,resolveu pegar uma gramática atualizada e ler um livro pequeno, bem fino.

Pegou seus antigos cadernos de escola, sua mãe guardava tudo. Em poucos meses sem telefone nas mãos, ele sentia vergonha das gafes literárias que havia cometido. Meses e mais meses de estudo e João ria dos currículos que preenchia pedindo emprego. Nesse tempo ele já estava lendo Guimarães Rosa. Cada autor clássico nacional que pegava ensinava-lhe novas palavras. Em pouco tempo ele tinha um vocabulário rico, diálogo forte e suas crônicas já recebiam as primeiras curtidas. Sem falar que as meninas respondiam suas mensagens com mais emojis de coração. O “Oi” virou “Oieee”. Tudo isso motivou o adulto João a seguir lendo e escrevendo muito.

Com um bom papo, arrumou o melhor de seus empregos. Com ainda mais lábia, foi promovido e mais e mais lábia casou-se com Luana, aquela que ele havia espantado com uma mensagem quase vulgar. O cara que errava a vírgula, agora escrevia poemas e contos românticos. A leitura fez João criar tanto foco que ele aprendeu a tocar violão. Logo começou a compor canções para Luana. Uma dessas canções ele cantou no casamento deles. E para seu filho, Luan, quando nasceu.

Um dia, após muito tempo de trabalho, João chegou em casa ouvindo gritos histéricos de Luan que tinha apenas um ano e oito meses. Ele perguntou para Luana o que havia acontecido, mas ela não respondia. Apenas perguntava:

– Cadê o carregador? Onde está?

– Que carregador? Perguntou João.

– Do celular, é por isso que ele está gritando.

João olhou para seu filho. Pensou em tudo que passou antes de conseguir ser alguém na vida, ajoelhou-se na frente de Luan, pegou o garoto no colo, levou até o quarto e leu pra ele uma pequena história infantil. Com sons, gestos e muita interpretação teatral. O garoto esqueceu do telefone. Luana ficou chocada.

– Como você conseguiu? Perguntou ela.

– Com paciência. Eu não quero que ele passe as vergonhas que passei até aprender a usar uma vírgula. Telefones são úteis sim, mas não na mão de uma criança, muito menos de um bebê.

– Você tem razão. Eu vou tentar ser uma mãe melhor.

– Não disse que você não é uma boa mãe. O mundo fez isso conosco, mas ainda dá tempo de evitar – Disse João – gostaria muito que as primeiras palavras dele fossem: “papai, eu amo-te”.

– Aí você já quer demais, né? Respondeu Luana.

Ambos riram e seguiram contando histórias para Luan.

Aos papais e mamães, um recado: cuidem essa questão, tá? Seus filhos precisam saber que existe um mundo real, além do virtual, que é, sem dúvida alguma, muito mais rico. Vocês são, com certeza, os melhores corretores que eles terão na vida.

 

 

Obrigado pela leitura.

Maurício Rosa.