Flores não serão suficientes – Gabriela Martins Machado

 

Antes que o 8 de março chegue, adianto que flores não serão suficientes. Sem a intenção de desmerecer a gentileza, que obviamente é bem-vinda em tempos inflamados, quero pedir que não esqueçam do respeito na hora das homenagens.

O que já poderia ter se tornado clichê no Dia Internacional da Mulher é um desejo que assumiu formato de luta por ser mais necessário do que nunca. Digo isso pensando na jovem de Santa Maria que foi agredida em horário de expediente esta semana. Monitora de estacionamento rotativo, ela levou socos de um homem que não gostou de receber a multa de R$15 provocada por ele mesmo ao errar a placa do próprio carro no aplicativo da zona azul.

Nem a mais poderosa planta medicinal é capaz de anular os efeitos psicológicos e sociais de uma humilhação desta categoria. Além do mais, rosas não servem como moeda para o pagamento da mensalidade do curso técnico que a menina frequenta. Sua formação profissional está condicionada à função remunerada que exerce, e que somada ao fato de ser mulher, lhe rendeu uma conta salgada: hematomas e medo.

Dizer que lugar de mulher é onde ela quiser parece ironia diante desse cenário. Primeiro, porque ela sofreu represálias ao cumprir uma atribuição de seu emprego, contrariando argumentos rasos como o de que apenas aquelas que não são independentes apanham. Segundo, porque podemos questionar se o agressor faria uso da condição física se estivesse diante de outro sujeito em igualdade de porte. Desejar um trabalho, nem de longe, foi suficiente para protegê-la da estupidez.

Esta reflexão tem potencial para se estender até camadas muito profundas da sociedade e atingir conceitos complexos. Mas podemos simplificá-la assumindo que vivemos um momento em que a violência contra as mulheres é socialmente aceita. Basta observarmos que o agressor da monitora não foi detido. No âmbito pessoal, possivelmente, continuará recebendo cumprimentos cordiais, será recepcionado por amigos e beberá sua cerveja em um bar qualquer sem que ninguém o aborde para retomar sua conduta sórdida. Este sim, desfrutará da plena liberdade de estar onde quiser sem ser importunado com perguntas desabonadoras.

De outro lado, as mulheres que lutem pela aceitação coletiva. Provar que são vítimas e sobreviver ao constrangimento das especulações que põem sua reputação em xeque em casos de repercussão pública ainda estão entre as batalhas a serem vencidas. Estamos juntas.

 

Gabriela Martins Machado

Jornalista
Mestre em Ciências Sociais
Acadêmica de Ciências Sociais

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