Nossos maiores heróis, nossos maiores bandidos – Elaine dos Santos


 

Em algum momento na constituição da história humana, alguém cometeu um grave erro. Introjetaram em nós a ideia que pai e mãe são heróis, eles não são, eles são seres humanos de carne e osso. Antes de serem pais e mães, eles foram filhos, amigos, marido, mulher, cometeram erros, tiveram dúvidas, desacertos e, de repente, num passe de mágica, a sociedade impõe-lhes o compromisso de acertarem sempre para que possam criar seres humanos perfeitos, poderosos, sem neuroses, confiantes, bem resolvidos.

Fazem-nos crescer acreditando que pai e mãe são, na verdade, super heróis, que eles têm a solução para tudo e que dispõem de super poderes, que eles terão o dinheiro necessário para satisfazer todos os nossos desejos, que eles serão capazes de entender todos os nossos sonhos mais escondidos, que eles serão complacentes com os nossos desvios mais descabidos e que, num gesto de amor, perdoarão todos os desacertos. Por que fariam isso, por que seriam dotados desse caráter magnânimo superior se eles ainda sentem-se crianças desprotegidas, implorando um colo, um pai ou uma mãe que lhes acalente, que lhes dê carinho? Eles são tão frágeis quanto nós e, por vezes, têm até mais perguntas sem respostas do que nós. Há pais e mães, ainda hoje, incapazes de falar assuntos tabu como sexo, outros sequer pronunciam certas palavras “malditas” como câncer, enquanto os filhos, menos preconceituosos, talvez mais esclarecidos “já tirem de letra” essas questões.

Não nos tornamos pais de nossos pais quando as vistas turvam, quando as pernas tropeçam, quando a memória falha, quando há temor diante do inusitado, do desconhecido, tornamo-nos pais dos nossos pais quando os superamos na formação acadêmica, nos conhecimentos formais, quando deveríamos exercitar um pouco mais a paciência e, urra meu!, ensinar uma vez mais como é o procedimento para a escolha dos candidatos em uma eleição ou meramente obter um extrato bancário (você já observou quantas mãos trêmulas diante de um terminal bancário?). Imaginem o temor deles diante de Facebook, LinkedIn, Whatsapp, Skype, Duolingo, Prezi, e esses brinquedinhos que, dia a dia, aparecem e nós ainda dominamos com extrema facilidade.

Nossos bandidos, sim, porque nos imputam os medos que lhes foram impostos por seus pais, por outras pessoas mais velhas do que eles, menos esclarecidas que eles, mais preconceituosas que eles. Uma vez, uma mulher muito bem esclarecida, senhora de si, dona da verdade, disse para a minha mãe que ela não havia sabido me criar. A minha mãe ficou duramente magoada e morreu com essa mágoa – não suportava ouvir essa dita mulher pregando verdades! Seis anos após a morte da minha mãe, o filho da senhora Verdade, teve uma grave crise depressiva e tentando justificar a doença do filho, a senhora Verdade explicava-se a uma amiga, na minha frente: “Tu vês, nenhum pai, nenhuma mãe erra ao criar um filho, a gente faz o que há de melhor, o que a gente imagina ser o melhor”. Pensei com os meus botões: “Pimenta nos olhos dos outros é refresco!” No fundo, ela estava certa em sua segunda constatação: Nenhum pai, nenhuma mãe faz graduação, pós-graduação e MBA no exterior para habilitar-se a ser pai ou mãe, eles apenas fazem o que lhes parece ser o melhor para os seus filhos, que, em geral, escolhem-nos como heróis, quando são crianças, mas, chegados a adolescência, elegem-nos para bandidos, culpabilizando-os por todos os traumas, as neuroses… Chegada a idade adulta, tornado pais, os filhos dos pais descobrem-se solidários com os seus próprios pais. Navegar é preciso. Amar também!

 

 

Professora Elaine dos Santos

Doutora em Letras