Não é culpa da Copa! – Elaine dos Santos


 

Em 2014, ano da realização da Copa do Mundo no Brasil, eu estava “morta”, vivia uma gravíssima crise depressiva, havia emagrecido 47 quilos, vagava pelas ruas, sem riso e, do “grilo falante” que era, tornara-me um ser humano mudo, sem disposição para entabular qualquer assunto, mas ninguém reparou e, se alguém notou, não se importou. Somente uma família acolheu-me e, inclusive, alimentou-me quando eu não tinha dinheiro, sequer para suprir as necessidades básicas como alimentação.

A inflação no Brasil, naquele ano (2014), fechou em 6,41%; o preço da gasolina no Rio Grande do Sul, em média, chegava a R$ 2, 947. Embora a taxa de mortalidade infantil tivesse se mantido estável, o número de mães que atendia as consultas mínimas no pré-natal não era satisfatório; a estupidez no aumento de cesáreas continuava; verificando-se alto índice de prematuros e com baixo peso.

O mapa da violência, divulgado em 2015, dava conta que 55,3% dos crimes cometidos contra a mulher aconteciam no ambiente doméstico, dentro de casa portanto, praticados por homens da família; registrando-se que, entre 2008 e 2013, o assassinato de mulheres negras havia crescido 54%.

O que mudou desde então? Depôs-se uma presidente eleita, institui-se um novo presidente com uma quase total desaprovação do povo, o preço dos combustíveis disparou, houve greve e o país quase parou [a inflação mantém-se “freada”, mas melhorou bastante se considerarmos 1986, o ano em que se realizou a Copa do México, por exemplo, quando aplicávamos os nossos recursos à tardinha em opções ofertadas pelos bancos para que, no dia seguinte, o nosso suado dinheirinho conseguisse acompanhar a galopante inflação!]. Crianças continuaram morrendo, mulheres continuaram sendo assassinadas, hospitais continuaram super lotados, a morte continuou encontrando pacientes nos corredores de hospitais à espera de atendimento, escolas continuaram sucateadas, professores continuaram mal pagos. Aliás, a Copa da Rússia começou na sexta/quinta passada? Parece que só depois desse dia os problemas brasileiros apareceram, né?! Parece que antes vivíamos em um país abençoado por Deus…

Elegeram a Copa e alguns órgãos de imprensa para demonizar, esquecendo-se que somos nós, eleitores e cidadãos brasileiros, que mudamos um país, e eu não estou pensando especificamente no exercício do voto – embora ele seja muito importante. Eu estou me referindo a ações nossas do cotidiano: emitir nota fiscal; não sonegar impostos; não furar fila; dar preferência para idosos; parar diante de faixas para pedestres quando houver pedestres; cumprimentar pessoas que cruzam o nosso caminho; respeitar individualidades; não se omitir quando, visivelmente, alguém está doente…vale a velha máxima, em todas as ocasiões: gentileza gera gentileza!

Quanto a mim, embora tivesse cogitado o suicídio (ninguém se mata porque quer deixar a vida, a gente pensa na possibilidade de por um término à vida porque não tolera mais tanto sofrimento!), consegui reerguer-me, engordei [muito!], voltei a ser o grilo falante de sempre – não dei os tapas na cara que tinha vontade, mas não me calo mais diante das injustiças, nem de algumas coisas que discordo veementemente, por exemplo, essa ideia que demonizar a Copa vai mudar alguma coisa no país. Estou assistindo aos jogos, já fui Rússia, Uruguai, Espanha, Argentina (uma verdadeira miríade de cores!) porque me faz bem, traz cultura, conhecimento e diversão, produz catarse, mas não me emburrece, é preciso ter inteligência e discernimento para, depois ou durante os jogos, não esquecer as mazelas sociais do país, que existiam antes e existirão depois da Copa de 1974 (a primeira que assisti), de 1978, 1986, 1994, 2002, 2014, 2018, 2026…e permanecerão ”ad infinitum”, enquanto buscarmos nos outros, em forças externas a culpabilidade pela omissão, pelo não cumprimento do nosso papel como cidadãos de um país que se quer sério.

 

 

Professora Elaine dos Santos

Doutora em Letras