“Maria vai com as outras” – Elaine dos Santos


 

Colorada [nem tão] fanática [como já fui nos anos 70], acompanho disputas de Copa do Mundo, desde a Alemanha, em 1974, quando Valdomiro Vaz Franco representou a nação colorada. Havia, naquele ano, a exaustão do tri-campeonato no México e parecia que a seleção canarinho não tinha “assim” tanta obrigação na conquista do título.

Inferia, desde muito jovem, que o futebol havia sido explorado como ópio do povo e, aos poucos, na medida em que amadurecia, entendi que, nos anos de cerceamento de liberdade, de supressão de direitos, o hino “90 milhões em ação” serviu para ocultar algumas mazelas que não se queria revelar ao povo inculto [essa gente que, ainda hoje, jura que aqueles eram tempos bons!]. Independente disso e de uma indisfarçada má vontade com Claudio Coutinho, o treinador da seleção em 1978, que não convocará Paulo Roberto Falcão, o meu ídolo maior no futebol, eu acompanhei a Copa da Argentina e eu chorei naquele famigerado 6×0 em que o Peru abriu totalmente o flanco para “nuestros hermanos del Plata” cacifarem-se para serem campeões do mundo. Não deu outra, a Argentina de Tarantini [lindo como ele só] sagrou-se campeã em 1978.

Lembro as lágrimas que rolaram contidas naquele início de tarde quando, na Espanha, em 1982, no velho estádio Sarriá, a seleção brasileira de Zico, Sócrates e, principalmente, Falcão foi desclassificada pela Itália – lágrimas que vieram aos borbotões à noite durante a edição especial do Jornal Nacional, eu sabia, conscientemente, que chorava a inflação alta, a dívida externa, a dura vida cotidiana, mas eu também chorava a desclassificação do melhor time de futebol que eu vira jogar. Lembro a alma apertada naquele sábado à tarde, sombrio, quando deixava Santa Maria, em 1986, no banco do ônibus, com o ouvido colado no rádio, ouvindo a cobrança de pênaltis, e mais uma desclassificação, lembro, naqueles anos, a inflação que corroia o dinheiro da noite para o dia, a desesperança do meu povo…Lembro Lazzaroni, Dunga, a Copa de 90, nunca fomos tão infelizes…

Lembro cada Copa de 1974 a 2014, o ano dos 7×1, dos mesmos 7×1 que tomamos todos os dias do governo, dos políticos, dos empresários, dos pseudo-amigos que silenciam quando, dilacerados, pedimos ajuda…Não entendo porque, agora, demonizam a Copa, a Seleção! Nada mudou, nem o brasileiro, nem a Copa, nem o futebol, talvez tenham mudado os jogadores, agora mercenários, atletas patrimônio, diferentes de Sócrates, Zico, Falcão que transbordavam prazer pelo campo, pelo manuseio da bola, pela jogada bonita. Não entendo como homens, com a mesma idade que eu, colorados como eu, esquecem que já tiveram muitos motivos para odiarem Copas do Mundo e amaram-nas e, agora, julgam-se arautos da boa política, como se não ligar a televisão em dia de jogo, não desfilar com a camisa da seleção, não jogar fogos fosse mudar a situação do país. Um país modifica-se com pessoas comprometidas, bem informadas, dotadas de conhecimento efetivo sobre o que se passa a seu redor e isso não inclui necessariamente a consulta aos sites de busca, mas demanda, sim, sentar, ler, analisar, refletir, sintetizar e formular um pensamento, sem o clássico e nada salutar hábito nacional “Maria vai com as outras”.

 

 

Professora Elaine dos Santos

Doutora em Letras

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