Sempre dá pra voltar pra casa (setembro amarelo) – Francisco Melgareco

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Tempo de leitura: 3 minutos

 

Ah, que saudade daquela criança! Aquela sem as dores da mente e do coração. Sem a ansiedade tão pesada. Com preocupações pequenas, felicidade simples. No fim do dia um banho tomado, cama confortável, sono seguro e sonhos felizes.

Crescemos andando por caminhos difíceis. Aprendendo na prática que passaremos por mais pedras do que rosas em nossa caminhada. Não dá pra ser forte o tempo todo, permita-se não ser. Mas sempre dá pra voltar pra casa no fim do dia.

Ainda que o dia inteiro tenha sido nublado, cinzento e frio, as cores tenham sumido da vista, sempre dá pra começar de novo. Haverá alguém, sempre haverá alguém que alegramos com nossa presença. Por mais que nossa mente muitas vezes nos diga que não, sempre dá pra voltar pra casa.

Seu coração será partido. Seus pés estarão machucados e doloridos. Mesmo assim, lembramos que temos o dom da cicatrização. Não tem mal que dure para sempre, por mais que nossa mente muitas vezes diga que sim, façamos ecoar nela também a lembrança de que vai passar. A dor vem, maltrata, cicatriza e passa. Então repetimos: vai passar.

Nossa casa pode ser um simples abraço. Daquele que se importa, daquela pessoa que tem sempre uma palavra de conforto nos dias ruins. Dias esses que virão, se repetirão, mas passarão. Que não haja nenhum ser humano sem esse tipo de lar, e que mesmo aquele que mora na rua, sempre tenha uma casa pra voltar.

Essa casa pode ser um sorriso. Daqueles que clareiam as sombras, colorem os dias. Que possamos sair de casa todo dia como colhedores de flores em meio à destruição. Que não deixemos o ar poluído mudar nossa essência. Não dá pra ser forte o tempo todo, permita-se cair, levante-se mais forte, comece de novo.

Nossa casa somos nós mesmos. Sempre quando estiver difícil devemos lembrar que podemos voltar. Podemos ainda ser, na compreensiva solitude, nosso melhor abrigo. Que ele nos proteja das tempestades da vida, estas, que também irão passar. Assim, ainda que o vento seja forte e tudo pareça escuro, nunca estaremos sozinhos.

É normal sentir fraqueza. Ainda somos aquela criança, que acorda querendo ver desenhos pela manhã. Que sente medo, que ainda carece de proteção. Fale com alguém, apenas fale. Tente, apenas tente. Nem sempre conseguimos ver com clareza, nem todo monstro que enxergamos é de verdade.

Enquanto a dor alivia devagar, que possa lembrar que existe um percurso de volta, existe saída. E você que já sabe o caminho, por favor, olhe ao seu redor, olhe ao seu lado. Sempre que encontrar alguém perdido, estenda a mão, seja um lar. Olhe nos seus olhos e diga, que por mais longe que esteja, sempre dá pra voltar pra casa.

 

 

Texto: Francisco Melgareco

Arte: Thiago Sian