São Sepé registra mais de 50 pedidos de medidas protetivas em seis meses

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Por: Pedro Corrêa

Soco na mesa, gritos intimidadores, olhares de julgamento, ameaças, controle das economias, modo de vestir e vigia constante. Tudo isso é assédio. Muita gente acha que a violência doméstica acontece quando há consumação de agressão física. As atitudes tóxicas, comuns em relacionamentos abusivos, doem mais que as agressões físicas na maioria dos casos. “As feridas do corpo somem, mas as da alma continuam”, relata Joana, cujo o nome foi trocado para preservar a identidade da fonte.

Segundo informações do Banco de Dados Global da Organização Mundial da Saúde (OMS), 492 milhões de mulheres no mundo sofreram algum tipo de abuso em 2018. A organização acredita que o número seja ainda maior, pois há países que não foi possível coletar os dados, bem como, o número de mulheres que tem medo expor os companheiros.

O Brasil ocupa a quinta colocação no ranking de feminicídio, conforme dados da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU), divulgados em novembro de 2021. O feminicídio é o homicídio praticado contra a mulher baseado no gênero. Ou seja, mulheres ainda morrem por serem mulheres.

 

Violência doméstica em São Sepé

A violência doméstica é um problema tão recorrente na cidade que houve a necessidade da criação de um cartório apenas para esse tipo de crime na Delegacia de Polícia da cidade. De acordo com a delegada Carla, há preocupação entre as autoridades locais por conta do alto índice de violência doméstica no município.
De janeiro até 02 de junho de 2022, data do fechamento desta reportagem, foram solicitadas 51 medidas protetivas em São Sepé, de acordo com dados disponibilizados pela Polícia Civil.

A delegada explica que a medida protetiva é solicitada pela vítima. “Nem todas mulheres agredidas querem medida protetiva, pois há outros fatores em jogo. Algumas acreditam que só o registro basta, outras não querem expor os filhos”, aponta, afirmando que a voz da mulher é respeitada sempre, “a palavra da vítima tem alto valor para gente”, salienta.

Em caso de violência, a vítima pode procurar a delegacia de polícia, ligar para o 190 e/ou 180.

 

Acolhimento

São Sepé, assim como a maioria das cidades do Brasil não possuí uma delegacia específica para mulher. Mas o trabalho realizado aqui é de acolhimento e respeito a todas mulheres.

Segundo Carla, todos os registros são feitos por uma policial mulher, que apoia e acolhe a vítima. “É um momento difícil, normalmente, elas estão muito frágeis emocionalmente, por isso, se sentem mais à vontade para conversarem com outra mulher”, diz.

São Sepé não possuí ainda casa de passagem ou acolhimento para mulheres vítimas de violência, mas a medida protetiva protege a mulher e garante segurança para vítima, já que o descumprimento da medida acarreta na prisão do agressor.

 

A dor de quem já sofreu

Os trecho da reportagem a seguir pode gerar gatilhos.

“Fui casada mais de 30 anos, tenho filhos com ele, e nunca pensei que as coisas fossem chegar no ponto que chegaram”, relata Joana, emocionada.

Joana conta que o casamento era normal, o marido e ela trabalhavam fora, criavam seus filhos e se divertiam sempre que dava. A relação do casal era boa a maioria do tempo, mas quando o marido bebia, as coisas mudavam “ele sentia muito ciúmes, inventava histórias da cabeça dele”, lembra.

Joana diz que o tempo de casada, a família que construiu ao lado do ex-marido e o medo de julgamentos da sociedade, fizeram com que ela aguentasse calada. “Eu sofri muito. Me calei durante anos. Apanhei muito. Fingia que estava tudo bem. Cheguei a achar que eu era culpada. Pensava que eu estava sendo chata demais com ele, exagerada, descuidada. Me culpei muito, sabe”, neste momento o choro mais uma vez toma conta e ela precisa tomar um copo d’água.

O relato de Joana é o mesmo de muitas mulheres que já sofreram com violência. A história de vida de Joana ocorre em diversas famílias brasileiras, inclusive agora, neste momento, há Joanas se sentindo culpadas pela dor que sofrem, quando na verdade, o culpado é um só: o agressor.

“Eu decidi denunciar o dia que eu fiquei sem caminhar e precisei colocar atestado no trabalho. Eu dei um basta. Foi minha alforria. Denunciei, chorei, mas me livrei. Hoje eu sou livre, do risada, uso batom e vibro a vida” conta orgulhosa. As lágrimas são substituídas pelo sorriso de alívio, e ela finaliza dizendo “somos fortes quando sofremos caladas, somos fortes quando denunciamos, somos fortes quando enfrentamos o machismo estrutural, somos fortes o tempo todo. O meu conselho para quem está sofrendo calada é um só: denuncie, você não está sozinha, às vezes parece que está, eu sei, mas você não está, denuncie”.

 

Rede de apoio

Você não está sozinha.

Muita gente pensa que a violência doméstica é agressão física. A psicóloga Bianca Textor aponta que o assédio pode ser de diversos modos e classifica cada um deles.

• A violência física entende-se como qualquer conduta que fira a integridade da saúde corporal. Já a violência psicológica refere-se a qualquer conduta que cause danos emocional ou na saúde psicológica da parceira. Pode se manifestar através de controle, ameaça, constrangimento, humilhação.

Violência sexual pode ser entendida quando não há consentimento. Importante salientar que existe sim violência sexual dentro de um relacionamento, se não há consentimento é violência sexual.

Violência patrimonial quando há retenção ou destruição total ou parcial de seus objetos tais como documentos, recursos econômicos.

Bianca explica que é preciso entender quais são os tipos de violência, observar o comportamento do parceiro e conversar a respeito. Além disso, também é necessário frisar, de acordo com a psicóloga, que a mulher que a vítima está fragilizada e, por isso, pode ter dificuldades em se abrir.

Quem está de fora precisa estar atento aos sinais, é comum que a mulher se sinta envergonhada, com medo por ela e seus filhos e até mesmo culpada pelos assédios sofridos. Por isso, segundo Textor, a rede de apoio é fundamental “Além dos serviços de saúde que prestam atendimentos para mulheres vítimas de violência doméstica. É importante denunciar o agressor.

E para além disso saber em quem tu pode confiar, ter pessoas próximas que transmitam segurança e que tu saiba que pode confiar e falar sobre”, finaliza.