
O alerta lançado por cientistas ligados à Organização das Nações Unidas (ONU), que define o mundo como vivendo a chamada “era da falência global da água”, não descreve um risco distante ou abstrato. No Rio Grande do Sul, esse processo já se manifesta de forma concreta por meio de estiagens recorrentes, pressão sobre sistemas de abastecimento, prejuízos econômicos e impactos crescentes sobre rios, aquíferos e bacias hidrográficas.
Segundo o relatório Global Water Bankruptcy, elaborado pelo Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH), a falência hídrica ocorre quando a retirada de água de um sistema supera, de forma contínua, sua capacidade natural de reposição.
Nesse cenário, mesmo regiões que registram enchentes em determinados períodos podem estar ameaçadas, caso o uso do recurso ao longo do tempo seja insustentável.
A condição, portanto, não está relacionada apenas à aparência de um território — se é úmido ou seco —, mas ao equilíbrio entre disponibilidade, demanda, qualidade da água e gestão dos sistemas hídricos.
Um alerta global com reflexos locais
O conceito de falência global da água parte de uma analogia da área econômica ou das finanças. Assim como ocorre em um processo de quebra financeira, os sistemas hídricos estariam operando além de sua “renda natural”, consumindo reservas acumuladas ao longo de décadas ou séculos, como aquíferos, solos e áreas úmidas.
“O conceito de falência hídrica é resultado de um processo insustentável. Diferente de uma crise, que é um choque temporário seguido de recuperação, a falência indica que o sistema perde a capacidade de se recompor”, explica o professor Guilherme Marques, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), líder do Núcleo de Planejamento e Gestão de Recursos Hídricos do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH).
Principais causas da falência da água |
Principais caminhos apontados pelo relatório |
|---|---|
| Uso da água acima dos limites naturais | Reconhecer a falência hídrica como um risco sistêmico |
| Produção agrícola intensiva | Aceitar limites físicos e ecológicos da água |
| Poluição e degradação ambiental | Proteger o capital natural |
| Perda de geleiras e mudanças no ciclo hidrológico | Adaptar economias e sistemas produtivos |
| Secas induzidas pela ação humana | Transformar setores intensivos em consumo de água |
| Má gestão dos recursos hídricos | Integrar justiça social às políticas hídricas |
Modelo econômico amplia pressão sobre água e solo
Para a economista Rita Pauli, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e líder do Grupo de pesquisa Desenvolvimento, Governança, Inovação Social e Sustentabilidade, o problema é intersetorial e está ligado ao modelo de desenvolvimento adotado pelo país nas últimas décadas.
Segundo ela, o avanço das commodities agrícolas e a reprimarização da pauta exportadora — processo em que a economia passa a depender cada vez mais da exportação de produtos primários, como grãos e matérias-primas, em vez de bens industrializados — ampliaram de forma significativa a pressão sobre os recursos naturais.
Nesse modelo, grandes extensões de terra passam a ser ocupadas por monoculturas voltadas ao mercado externo, altamente dependentes de água, insumos químicos e uso intensivo do solo, o que acelera o esgotamento dos sistemas naturais.
Outro fator apontado é a expansão das sementes transgênicas, associada ao aumento do uso de agrotóxicos.
“Hoje temos um problema seríssimo de que estamos usando mais veneno do que antes e a água existente é cada vez mais contaminada”, diz Pauli. Atualmente, mais de 90% da soja e do milho cultivados no país utilizam sementes transgênicas.
Eventos climáticos extremos no RS e efeitos sobre a agricultura
No Rio Grande do Sul, os efeitos do desequilíbrio hídrico têm se intensificado. Na última década, o Estado enfrentou sucessivas estiagens que afetaram tanto o abastecimento urbano quanto a produção agrícola.
Entre 2020 e 2022, a falta de chuvas comprometeu lavouras e levou dezenas de municípios a decretar situação de emergência. Já em 2023 e 2024, cheias extremas se alternaram com períodos de escassez, enquanto em 2025 diversas cidades voltaram a registrar dificuldades no fornecimento de água.
Dados do Atlas Digital de Desastres no Brasil indicam que, entre 1991 e 2024, o país registrou 32.453 ocorrências de estiagens e secas. O Rio Grande do Sul respondeu por 11,98% desses eventos, ocupando a segunda posição no ranking nacional. Para a ONU, a redução do intervalo entre episódios extremos é um dos sinais de falência hídrica, já que os sistemas naturais não dispõem de tempo suficiente para se recuperar.


