




O escritor sepeense Maurício Rosa de Souza foi premiado em um concurso nacional de crônicas. A premiação ocorreu no mês de setembro, através do Prêmio Escriba 2019, realizado pela Prefeitura de Piracicaba, em São Paulo, na categoria crônica.
O concurso envolveu conto, crônica, redação, histórias infantis, tudo bem abrangente. O escritor foi contemplado com um certificado e uma quantia em dinheiro.
Com tema livre, Maurício desenvolveu uma crônica com uma reflexão sobre a “Batalha de Porongos”, que findou a Revolução Farroupilha. Nesta quinta-feira, 14, completa-se 175 anos do triste episódio.
Leia a crônica na íntegra
Há quem chame aquilo de batalha, agora me responda: que batalha? No dia 14 de Novembro de 1844, as tratativas para o fim da Revolução Farroupilha já estavam em trâmite. Pensavam nas futuras relações da república rio-grandense com o Império, no recomeço do desenvolvimento de tudo que havia sido perdido. Um dos principais questionamentos: “quem iria cuidar dos jardins da capital gaúcha, destruídos durante os três períodos de sítio?”. No início da revolução, pensaram em nós, negros, não como humanos e sim como escudos e tapetes vermelhos. “Os negros vão à frente, são corajosos e fortes”. Sem qualquer tipo de anuir. Acreditávamos em cada estultice gritada por generais barbudos e “corajosos” soldados com suas espadas viperinas. Mal sabíamos nós que, na verdade, estávamos a ganhar mais um patíbulo. A diferença era que morrer na cruz, no nosso caso, seria menos doloroso do que lutar uma guerra e voltar à senzala, ao tronco. Ao inferno. Dez anos escutando discursos hipócritas sobre liberdade, falando em abolição de forma vazia. E o pior é que meus olhos brilhavam quando tais palavras eram entoadas. À medida que a revolução decorria e que os farrapos se prejudicavam, as cores, preta e vermelha, eram as mais cogitadas a serem usadas na pintura “sacrifista” pós-guerra. Falavam em voltar a desenvolver a pecuária e a agricultura. Como eles fariam isso sem os pretos?
Canabarro se passou por nosso amigo e nos entregou mortos, às tropas do Império. Na verdade, nos entregou aos corvos. O que vocês chamam de batalha foi, na verdade, um ataque covarde, praticado por uma horda viperina de homens que nunca viram o negro como pessoa. Estávamos desarmados, lânguidos e ainda assim dificultamos, com todas as nossas escassas forças, a capitulação. Morremos esquálidos e sem uma mísera benção (Talvez o espírito de Palmares tenha acalantado nossa passagem junto a Omulu). TRAÍDOS. Como pode isso ser chamado de batalha?
Há tempos eles vinham falando sobre o que fazer com os lanceiros. Levantavam teorias de que nos rebelaríamos e lógico que isso teve efeito negativo nas “tratativas”. Mas que tipo de tratativa é essa, na qual é discutido se pessoas devem ou não morrer? Pessoas que lutaram pelos mesmos ideais das que estão “tratando” suas mortes.
Milhares de negros fugiram para lutar ao lado dos farrapos e por sua própria liberdade. Ao fim da guerra, os que não voltaram às fazendas morreram no mato, viraram comida de cachorro, pegaram uma peste veemente, fora das curas de Oxóssi. Alguns abençoados encontraram um Congo aos Pampas. O restante pode-se dizer que morreu na “batalha”. Hoje só falam do Seival, Arroio Grande, Fanfa, Barro Vermelho e para manter a beleza dos fenômenos, resolveram chamar, uma das maiores traições de guerra da história desse país de “batalha”. Um dia antes, nos fizeram entregar as armas, com promessas de que nossos belos serviços estavam finalizados e que deveríamos esperar uma posição do general dentro de algumas horas. Ao receber nossas lanças, Canabarro beijou nossas testas. No dia seguinte, ele estava de botas limpas, pança cheia de chimarrão e até de charque, atirando em tudo que tivesse cor escura. A ideia era obliterar, mas ele, com sua “fidalguia” e pressa, acabou com tudo de uma só vez.
Não posso esquecer-me de dizer que grandes homens brancos lutaram e morreram cobrando, dos farrapos, as promessas feitas a nós negros. Tudo em vão. As promessas secaram tão rápido quanto o sangue das lanças. Evaporaram como a pólvora dos revólveres. Para eles, o negro era mesmo como um porongo. Oco. Sem alma. Fácil de quebrar e de jogar fora. Mas nós tínhamos alma sim, tão branca quanto às pipocas do axé de Xapanã.
Agora vou seguir meu rumo, mas deixo um questionamento sobre a “Batalha de Porongos”: mas pera aí, que batalha?
Há 175 anos, mais de cem negros foram covardemente assassinados. Motivo: descarte. Um descarte covarde, um escárnio eterno que até hoje é chamado de “batalha”. Afinal, que outra função o negro tinha a não ser servir? E assim se fez, os negros serviram tão bem que até para morrer foram exemplares.




