
A assinatura do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, neste sábado (17), vai aproximar cadeias produtivas estratégicas de dois continentes, ao mesmo tempo em que evidencia uma relação econômica assimétrica — em que o Brasil ocupa posição central dentro do tratado.
De acordo com dados da Comissão Europeia, o Brasil responde por mais de 82% de todas as importações europeias originadas no Mercosul e por cerca de 79% das exportações do bloco sul-americano destinadas ao velho continente. (entenda mais abaixo)
Com esse desenho, Argentina, Uruguai e Paraguai tendem a ocupar uma posição secundária na dinâmica do acordo. Ainda que integrem oficialmente o Mercosul, a menor escala de suas trocas comerciais faz com que a UE conduza a negociação essencialmente a partir da relação com o Brasil.
De quem o Brasil depende
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que as compras brasileiras junto ao bloco europeu estão concentradas em poucos parceiros. Em 2025, três países responderam, juntos, por cerca de 57% dos US$ 50,3 bilhões que o Brasil importou da UE.
- Alemanha: US$ 14,4 bilhões (28,6%);
- França: US$ 7,2 bilhões (14,3%);
- Itália: US$ 7,1 bilhões (14%).
A composição das importações brasileiras evidencia uma dependência concentrada em bens de maior valor tecnológico, essenciais tanto para o funcionamento de serviços públicos quanto para a atividade industrial.
Sendo eles:
- 💊 Medicamentos e produtos farmacêuticos: US$ 8,1 bilhões.
- 🚗 Autopeças: US$ 2,5 bilhões.
- ⚙️ Motores e máquinas não elétricas: US$ 2,4 bilhões.
- ✈️ Aeronaves: US$ 1,2 bilhão.
- 📐 Equipamentos de medição, verificação e controle: US$ 1,4 bilhão.
- 🧪 Compostos químicos: US$ 1,41 bilhão.
José Pimenta, diretor de Comércio Internacional e sócio da BMJ Consultoria, ressalta que a retirada das tarifas tende a reduzir os custos de produção no Brasil ao baratear a importação de insumos da UE. Segundo ele, hoje a tributação eleva de forma significativa o preço final pago pelo produtor brasileiro.
Quem depende do Brasil?
Para a União Europeia, o Brasil desempenha um papel relevante como fornecedor de insumos básicos e matérias-primas estratégicas. Segundo dados do MDIC, dos US$ 49,81 bilhões exportados pelo Brasil ao bloco europeu em 2025, 73% tiveram como destino cinco países.
- Holanda: US$ 11,7 bilhões (23,6%);
- Espanha: US$ 8,8 bilhões (17,7%);
- Alemanha: US$ 6,5 bilhões (13,1%);
- Itália: US$ 5,3 bilhões (10,8%);
- Bélgica: US$ 4 bilhões (8,1%).
No caso holandês, esse protagonismo está ligado ao papel do país como hub logístico da UE, com destaque para o porto de Roterdã, principal porta de entrada de mercadorias que depois seguem para outros mercados do continente.
Já para Espanha e Alemanha, a relevância do acordo vai além da ampliação das trocas comerciais. Segundo Leonardo Munhoz, pesquisador do Centro de Bioeconomia da Fundação Getulio Vargas (FGV), o tratado é visto como parte da estratégia europeia para fortalecer a economia diante das tensões geopolíticas envolvendo China e Rússia.
Esse interesse se reflete na composição da pauta exportadora brasileira para a UE, concentrada em produtos primários e insumos industriais — itens necessários para cadeias produtivas e para o abastecimento energético e alimentar do continente.
Entre os principais estão:
- 🛢️ Óleo bruto de petróleo: US$ 9,8 bilhões.
- ☕ Café não torrado: US$ 7,1 bilhões.
- 🌱 Farelo de soja para alimentação animal: US$ 4 bilhões.
- 🔩 Minérios de cobre: US$ 3 bilhões.
- ⛓️ Celulose: US$ 2,1 bilhões.
- ⛰️ Minério de ferro: US$ 1,1 bilhão.
E os demais países do Mercosul?
Embora negociado em bloco, o acordo entre União Europeia e Mercosul apresenta uma estrutura assimétrica. O Brasil concentra a maior parte do peso econômico, enquanto Argentina, Uruguai e Paraguai participam em escala menor.
A Argentina aparece como o segundo principal parceiro sul-americano no comércio com a União Europeia, mas a distância em relação ao Brasil é expressiva. Em 2024, as exportações brasileiras ao bloco europeu foram quase cinco vezes maiores que as argentinas, que somaram US$ 8,5 bilhões.
Para Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), essa assimetria é agravada por um cenário político pouco favorável à coordenação regional. “O ambiente atual é muito ruim para o diálogo, sobretudo diante das dificuldades de interlocução entre o governo brasileiro e a gestão de Javier Milei.”
O distanciamento político entre os presidentes Lula e Milei contribuiu para o esvaziamento do papel argentino na reta final das negociações.
“Embora o acordo tenha avançado tecnicamente, a relação protocolar levou o Brasil a assumir o protagonismo diplomático, enquanto Buenos Aires perdeu capacidade de articulação”, avalia Bressan.
Em contraste com a volatilidade argentina, o Uruguai apresenta uma trajetória de crescimento gradual e maior previsibilidade institucional. As exportações da UE para o país avançaram de US$ 418 milhões para US$ 2,1 bilhões em pouco mais de duas décadas.
Ainda assim, segundo Bressan, o país enfrenta limitações técnicas para atender às atuais exigências ambientais do bloco europeu. “Diferentemente do Brasil, que conta com um arcabouço legal mais estruturado, como o Código Florestal, esses países partem de uma base regulatória mais frágil”, afirma a professora.
No caso paraguaio, essas restrições se somam a um peso econômico reduzido na relação com o bloco europeu. Em 2024, as exportações da UE para o país somaram US$ 994 milhões, enquanto as importações ficaram em US$ 416 milhões, uma estagnação observada desde 2018.
Mesmo tendo pouco peso no comércio com a UE, o Paraguai ganhou importância no processo em 2026 ao assumir a presidência temporária do Mercosul — cargo que conduz a etapa final de ratificação do acordo.


