Sobre morrer – Elaine dos Santos


 

Algum idiota, em algum momento da História da humanidade, “inventou” que morrer não era bom. E um zilhão de idiotas, nós, desde então, tem medo de morrer.

Uma de minhas alunas no Curso de Letras, em meio a uma aula de literatura, disse-nos que não queria morrer. Paramos a aula e passamos a ouvir o seu desabafo, que foi, deveras, pueril, mas respeitado. Como professora, sempre considerei que, formando novos professores, eu tinha o dever de problematizar as suas dúvidas, as suas inquietudes. E assim o fiz. Perguntei-lhe se já havia pensado nos inúmeros enterros que frequentaria, na morte dos inúmeros amigos que acompanharia, na solidão que sobreviria e ela balançava a cabeça negativamente. Depois de umas dez perguntas, ela pediu a palavra: “Tá bom, professora! A senhora me convenceu, eu aceito morrer!” Todos rimos.

Como professora de literatura e acostumada a manusear metáforas – eu e, mais tarde, aquela aluna – sabemos que existem infindas metáforas sobre a morte: a nossa primeira morte ocorre exatamente no momento em que nascemos para aquilo que se consignou dar o nome de vida. Quando aprumamos o nosso corpinho, miúdo e frágil, para nascer, começamos a vencer a primeira batalha [e, por isso, sou radicalmente contra os partos com cesárea, que subtraem o direito da criança nascer “por si só” e aprender a lutar pela vida!] e dizer adeus ao paraíso que era a barriga da nossa mãe, nunca mais teremos hospedagem, alimentação e calefação, avalizados com muito amor, gratuitamente.

As nossas mortes simbólicas disseminam-se ao longo de tempo: caminhar, alimentar-se sozinho são “mortes” porque nos afastam da nossa mãe, daquela intrínseca, doce e nunca mais recuperada relação terra/terra; as primeiras frustrações amorosas são avassaladoras: trancamo-nos no quarto, às escuras, e escutamos: “Seu guarda, eu não sou vagabundo” ou qualquer coisa semelhante… E assim vai! Mentiras, fofocas, decepções…dores físicas, pedaços do corpo extirpados! Dores emocionais, pedaços da vida dessignificados…

Esquecemo-nos de olhar para a natureza, nasce o sol e não dura mais que um dia, já afirmava o poeta! Outro poeta lembra-nos que, na sua morte, não queria flores, não era justo subtrair a vida para adornar a morte! Deméter, a deusa da natureza, quando teve a filha Prosérpina seqüestrada por Hades, o senhor das trevas, quase enlouqueceu e descuidou-se dos rios, das árvores, das flores. Assustados, os demais deuses recorreram a Zeus para que recompusesse a ordem natural e ele acertou com Deméter e Hades que Prosérpina ficaria seis meses com a mãe – a terra viceja, primavera e verão; seis meses com o marido – a terra murcha e muitas plantas e animais “morrem”. Por outro lado, observando o ciclo da plantação das grandes lavouras, há um momento para semear, há um momento para manter a lavoura limpa, há um momento para colher e há um momento para que as sobras apodreçam…Os meus alunos impressionavam-se com os poemas de Augusto dos Anjos justamente porque ele tratava de corpos apodrecidos, vivendo em um município em que ainda predomina a produção agropecuária em grande escala, perguntava-lhes o que acontecia quando um animal qualquer morria no campo e a resposta vinha rápida: “Vira adubo”. Questionava-lhes, então: “Entenderam a passagem bíblica: ‘do pó vieste e ao pó retornarás’?” Simples, não?! Por que complicar tanto esses momentos tão sublimes e tão passageiros entre a estada de Prosérpina com a mãe, Deméter, em que vivemos a primavera e o verão de nossos dias?

 

 

Professora Elaine dos Santos

Doutora em Letras