Porque as mães também têm direito à felicidade – Elaine dos Santos


 

 

Segundo consta, já houve um tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, desconfio que isso faz muito tempo. Penso que também, por volta de 1900 e me esqueço, era comum, as pessoas almoçarem, jantarem juntamente com as suas famílias e, por algum acaso do destino, chegava-se mesmo a registrar a troca de confidências entre os membros de uma mesma família. Acredito que seja daquele período – tããão longínquo – o hábito de se conceder presentes às mães no segundo domingo de maio. Presente às mães!

Dias atrás, observei o desabafo de uma amiga, em rede social, pedindo que lhe oferecessem um presente como mãe, como mulher, que não entendessem o dia das mães como um chá de panelas – pequena festa feita antes do casamento, quando as amigas da noiva reúnem-se para ajudá-la a montar a cozinha da casa nova, sendo que cada uma deve levar um presente simples, útil PARA A COZINHA DA CASA! Cada vez mais, o dia das mães torna-se uma data comercial em que as lojas de departamentos esmeram-se na melhor oferta, no produto mais útil para o lar, teoricamente, objetivando oferecer melhores condições para que mulheres, em dupla ou tripla jornada de trabalho, exerçam o seu papel de anjos tutelares, rainhas do lar, boas esposas, boas mães, boas domésticas.

Séculos de dominação masculina impuseram um perfil feminino altamente dócil e servil. Na prática, os presentes estilo “chá de panelas” estão apenas a repetir ou a “gritar” em alto e bom som que, como diziam os nossos bisavôs ou os nossos avôs: “Lugar de mulher é na cozinha, na área de serviço, no tanque, na horta, submissa ao marido!” Nããããão!

Senhores pais e senhoras mães (sim, porque algumas mães reproduzem discursos machistas!), não permitam que os seus filhos e filhas continuem disseminando essa diferenciação grotesca entre o macho que nasce para a rua e a mulher que deve circunscrever-se ao lar. Tanto o homem quanto à mulher têm o direito a serem livres e felizes, se isso significa que a mulher deseja ficar em casa, cuidar do marido e dos filhos, deve ser uma escolha dela, em consenso com ele, mas nunca uma imposição, a frustração de sonhos, de planos para o futuro. Não propiciemos o recalque de sentimentos, a não realização do projeto vitorioso de vida que cada um representa. Se possível, nesse dia das mães, antes de tudo, dê um grande abraço, uma porção de beijos, sente-se e converse – o diálogo anda tão em falta. Depois, se você tiver conseguido reunir “money”, presenteia-a com algo para ela, que faça sentido para ela, que seja um presente de filho para mãe e que, acima de tudo, seja um gesto de gratidão por quem velou o seu sonho noites e noites (e, quem sabe, ainda vela).

 

 

Prof. Dra. Elaine dos Santos

Revisora de textos acadêmicos/palestrante

Contato e.kilian@gmail.com