Por um gesto de amor ao próximo – Elaine dos Santos


 

 

Os meus ex-alunos nas várias universidades em que trabalhei, em cursos como Direito, Psicologia, Enfermagem, incluindo um diretor de presídio estadual e vários agentes penitenciários, costumavam dizer que, dentro de um presídio, era muito fácil lidar com assassinos. Achava uma aberração, até que convivi, sem saber, com um deles. Ele nunca confessou o assassinato do pai e da madrasta em São Paulo, está preso em Tremembé/SP, mas esteve foragido em minha cidade, conviveu entre o meu grupo de amigos – estudioso de Filosofia e Teologia, era uma conversa interessantíssima, poucas pessoas sabiam sobre Deus como ele e eram capazes de problematizar e equacionar questões bíblicas com tanta precisão e acurácia.

Por que o menciono? Porque, dias atrás, o comércio fez-nos comemorar o dia das mães e vimos “brotar” declarações de amor ímpares, únicos em redes sociais. Mas também vimos notícias sobre a saída de Suzane Von Ritchtofen (que “encomendou” a morte dos pais) e de Ana Carolina Jatobá (madrasta da menina Isabela) das suas respectivas penitenciárias para passarem o dia das mães em casa – ao que me conste, Mrs. Von Richtofen sequer é mãe!

As postagens indignadas sobre a situação das duas presidiárias fizeram-me pesquisar sobre os casos de filhos que matam pais e mães e, incrivelmente, impressionou-me o altíssimo índice registrado no Brasil. Não vou me deter em casos famosos, vou apenas referir que, dias atrás, ao chegar à Delegacia de Polícia para buscar um documento, observei a saída de uma senhora idosa, com o corpo cheio de hematomas. Cruzei o olhar com um dos inspetores e ele fez uma expressão de pesar, adentrou uma sala, desapareceu, mas, pela mesma porta, saiu outra pessoa, um homem comum que parecia ter presenciado o depoimento daquela mãe, que havia levado uma surra e sido estuprada pelo filho drogado.

Refinei a minha pesquisa e procurei os casos de mães que matam filhos. Como professora de literatura, o tema não me é estranho, afinal “Medeia” é uma das mais conhecidas tragédias gregas. Mulher de Jasão, Medeia teve filhos com ele, mas sendo considerada bárbara, sem o refinamento da corte de Corinto, Jasão decide-se pelo casamento com Glauce, filha de Creonte – rei de Corinto. Para vingar-se do marido, tentando imputar-lhe a maior dor possível, Medeia sacrifica todos os filhos. O seu prazer reside no sofrimento de Jasão.

Segundo a psicanálise, na maioria dos casos, as mães que matam filhos são mulheres com algum transtorno psiquiátrico, não se podendo negar, porém, que pode haver a premeditação, ou seja, a pessoa prepara o assassinato do próprio filho acreditando que está fazendo a coisa certa. Neste sentido, entendo que não existe uma mágica que torna toda mulher imune às doenças e, como tal, uma mãe perfeita. É preciso que haja um acompanhamento familiar, a capacidade de diálogo entre aqueles que interagem com mães que se acham em elevado nível de estresse ou, por outro lado, em estado depressivo acentuado, fazendo-as entender que tirar a vida de uma pessoa não é um ato de amor, mas um gesto tresloucado que pode mitigar o sofrimento momentaneamente, sem, contudo, permitir recuperar a vida perdida. Em um país em que educação e saúde foram relegadas ao milionésimo plano, a empatia e a compaixão entre as pessoas parece ainda ser a melhor alternativa para evitarmos cenas chocantes que marcam, às vezes, de forma macabra as nossas vidas. Por vezes, um gesto ou uma palavra podem ser o diferencial entre a vida e a morte.

 

 

Prof. Dra. Elaine dos Santos

Revisora de textos e Palestrante (temas educacionais)

Contato e.kilian@gmail.com