O (des) respeito à vida (e à morte) – Elaine dos Santos


 

Moro em Restinga Seca e, no último sábado, havia passado boa parte da tarde em Santa Maria. Ao regressar pela RSC 287, desde a entrada para Silveira Martins, na localidade da Palma, era perceptível que alguma coisa – nada boa! – havia acontecido, os carros e os caminhões que passavam, um a um, davam “sinal de luz” e alguns motoristas faziam o sinal característico de acidente sobre a pista. Nas proximidades daquele local que convencionamos chamar de “açude grande”, havia viaturas da Polícia Rodoviária, do Corpo de Bombeiros, do SAMU, uma funerária e os carros, lentamente, passavam – na contramão – pela pista Restinga/Santa Maria, enquanto os carros que vinham no sentido contrário eram desviados pelo acostamento.

Eu creio que já devo ter passado por uns três ou quatro acidentes com vítimas fatais, você “pressente” a tragédia e acho que a maioria dos motoristas que passou por ali teve a mesma sensação. Por outro lado, o meu pai trabalhou como motorista de caminhão e, desde os 10 ou 12 anos de idade, aprendi que não se para, não se faz perguntas, não se atrapalha o trânsito nessas ocasiões. Consternada, porém, observei que algumas “criaturas” estacionavam no acostamento logo adiante e voltavam com celulares e máquinas fotográficas, havia uma ânsia pelo registro do fato, provavelmente a ser compartilhado em redes sociais.

Certa vez, já faz um bocado de tempo, regressando de Cachoeira do Sul, onde eu trabalhava, o meu pai e eu fomos parados em meio ao caos de um acidente para trazer documentos a pedido de um policial rodoviário até a cidade de Paraíso do Sul. Era a segunda vez que eu via um homem morto sobre o asfalto. No caminho, comentava o fato com o meu pai. Ele, motorista experiente, lembrava-me que, naquele momento, em algum lugar, uma família, provavelmente, pranteava aquela vítima, ali, tombada, morta, solitária. Essa imagem nunca mais me fugiu à mente: um mundo, uma vida (ou, às vezes, várias vidas) findou-se ali no asfalto, em fração de segundos, e, em algum lugar distante, alguém estava recebendo, recebeu ou receberia a notícia daquela morte e o passamento daquela (s) pessoa (s) provocaria dor, pranto, tristeza, saudade.

Por mais que as redes sociais e a instantaneidade da informação nos provoquem a partilhar imagens, sons, dados… saí aniquilada do açude grande, aniquilada pelo acidente, pela morte, pela insensatez, pelo desrespeito. Em que ponto deixamos de ser humanos? Em que ponto deixamos de nos solidarizar com a dor do outro? Em que ponto uma sequência de “likes” em rede social é mais importante que o respeito a uma vida que encontra o seu fim?

 

 

Elaine dos Santos
Professora Doutora em Letras