Francisco Melgareco Benine

Tributo ao campinho

“Foi ali, na janela da cozinha daquela casa, que eu fiz o gol mais bonito da minha vida.” O campinho virou terreno, mas as lembranças pairam sobre a pequena porção do relvado esverdeado que ainda se faz ver.

Quase noite e quem fizer o gol vence. Em meio à penumbra, ainda na parte sem grama, a bola quica e sobra para alguém. Se junta a força que resta depois de duas horas de jogo e o chute sai tão forte que, após passar entre as traves de taquara, vai parar no pátio daquela senhora nem sempre simpática, mas que às vezes até devolve a redonda. A bola pode até não voltar, mas já foi a glória.

Ao chegar em casa, chuveiro só após desencardir os pés no tanque de lavar roupas no lado de fora. Suor e cansaço, uma “tampa” do pé perdida, uma unha roxa. Tudo vale quando se pode ter a sensação de liberdade de correr campo adentro chutando qualquer tipo de preocupação de quem ainda sequer tem idade de ter. Afinal nada mais saudável que se machucar jogando no campinho da esquina, até porque naquela época, as mães não precisavam dizer “Vai brincar lá fora guri!”, “Sai desse computador!” ou “Larga esse celular!”.

campinho francisco benine

Nas tardes de verão, quarenta graus e sol a pino, não se deixava de estar lá. Em um tempo onde ter um ar-condicionado em casa era utopia (e os jogadores de futebol profissional não reclamavam por ter de jogar quarta e domingo), se fazia escola em termos de resistência física. E bendita era a hidratação depois do jogo. Afinal, a melhor água do mundo é aquela que foi bebida com as mãos em forma de “concha” na torneira mais próxima de um campinho de futebol.

Quando vinha um time “de fora”, a coisa ficava séria. A estratégia começava escolhendo atacar o primeiro tempo “a subir”, e no segundo tempo ficar na boa, com o adversário cansado tendo que vencer a “leve” inclinação do campo, fator local importante para quem joga em casa. Algumas jogadas mais duras, porém com lealdade. Pediu, cobra a falta e segue o jogo.

Chuteiras eram artigos de luxo. Bons mesmos eram aqueles tênis que já não tinham condições de serem usados para outros fins que não fossem participar das “peleias” naqueles campos que exigiam um solado mais versátil, os que possuíam grama apenas nas laterais, por exemplo.

Feliz quem pode sentir o cheiro da grama e tomar um banho de chuva jogando bola ali, mesmo que por vezes, enchendo o pé de rosetas, ou tendo que buscar a bola no matagal. Abençoado foi aquele campo com goleiras tortas, roçado ocasionalmente por um senhor gentil que apenas gostava de ver a alegria juvenil, sadia e verdadeira de uma infância com muito mais roxos e menos unhas.

Pequena porção de terra e grama que não enxergava cor, tamanho, idade ou classe social. Que fez com que amizades fossem começadas e pudessem seguir até hoje, que talvez até tenha tirado tantos jovens de caminhos impróprios. Sua falta se faz sentir, nem as infâncias são tão felizes como por hora foram e, por coincidência ou não, nosso futebol também não é mais o mesmo.

Dedico a ti um agradecimento especial, por acolher parte dos sonhos meus e de tantos. Agora ou daqui trinta anos, ecoarão as lembranças de cada grito de comemoração, em cada singelo gol feito ali. Obrigado campinho, as histórias estarão vivas na memória. O coração jamais enxergará construções. Verá o lançamento que veio do quintal, o domínio na porta da sala, o gol de placa ali, na janela da cozinha daquela casa.