Camila Gonçalves

Mudança de perspectiva é o desejo para 2016

Quebrei a cabeça tentando fazer o balanço da minha própria vida depois de outubro, quando completei 30 primaveras. Todo mundo diz que esta fase pede a análise. É como aquela revisão que fazemos quando um ano se encerra. Outro dia li uma entrevista com um psicanalista que recomendava não tomar decisões nos últimos dias de dezembro, pois ficamos vulneráveis demais às emoções.

É uma época em que ficamos tentando medir o quão bem sucedido somos pela posição que alcançamos no emprego, pelas coisas que adquirimos, entre outros meios que, segundo Christian Dunker, permitem apenas uma avaliação superficial de quão perto estamos de nossos desejos.

Dizia ele que descobrir o que desejamos de verdade é bem mais complicado e, como terapia dá um trabalho danado, a gente deixa pra depois e aí não pode se culpar por aquele vazio que não sabemos de onde vem quando temos “tudo” o que sempre quisemos. Ou ainda quando temos tudo o que precisamos e tudo o que fazemos é ambicionar ainda mais.

Toda esta perspectiva me deixou mais ansiosa (ansiedade é, na minha opinião, a palavra do século) para passar o pente fino na minha vida até os 30. Analisando de forma superficial fui um desastre, ainda mais se levar em conta como meus pais – da geração que lutou por segurança financeira desde cedo – enxergam minha bagagem até aqui.

Foi aí que me deparei com a dificuldade de avaliar também o meu desempenho superficial até me tornar balzaquiana. Conversando com um amigo falei da preocupação de ter 30 anos, nenhum bem material e ver minha profissão se transformando (suavizando o termo à beira da morte) na era do triunfo absoluto de uma Uber, por exemplo, como tudo que considerávamos super estável até 20 anos atrás. Ele me apresentou então a teoria da “Contagem de Vida Útil”. Eu mesma coloquei esse nome porque foi exatamente assim que ele usou o tal método matemático-biológico. Disse que eu só havia tido 15 anos de vida útil já que nos primeiros 15 era impossível trabalhar para construir o futuro que eu iria escolher.

Foi tão mais fácil lidar com essa perspectiva. Em segundos abandonei a minha própria, de que estava na metade do caminho para a terceira idade. Ao menos agora os 30 parecem mais leves. Tive pouco tempo para alcançar o sucesso: só um terço da vida adulta, se considerarmos a inutilidade do primeiro terço.

Já a auto avaliação mais profunda, aquela vai me dizer se tenho alcançado o que desejo e principalmente “o que” exatamente eu desejo, vai ficar pra depois. Como a maioria das pessoas vou me dar o luxo de adiar mexer das caixas velhas da memória, reviver todas as dores e traumas que a gente acumula, até porque esses traumas seguem acontecendo, às vezes num intervalo de tempo que não nos deixam recobrar o fôlego para um próximo.

Para quem aproveitou os últimos momentos do desastroso 2015 tentando a análise da alma, já sabemos: pouco tempo pra tanto esforço, meus caros. Que em 2016 tenhamos energia e coragem para investir nesse estudo pessoal. Porque aquela coisa de ser alguém na vida tem que ser vista além da ótica do consumo e da posição social. Já somos alguém. Quem sabe não vale investir em descobrirmos quem somos para então sermos pessoas realizadas e prontas para fazer o bem. Quem já tentou terapia sabe que buscar autoconhecimento é frustrante na maioria das vezes, mas dá um resultado incrível quando funciona.